sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Disse, e saiu de perto da janela

O homem levou o gravador até perto de sua boca e apertou o botão que iniciaria a gravação.

Hesitou por um momento.

“Estou aqui nessa manhã fria de novembro. Já já vai começar a esquentar e terei que tirar o casaco e contemplar a quentura desse país que se chama Brasil. Olho para fora e não vejo ninguém. Às seis em ponto começarão a aparecer no ponto de ônibus aqui perto os homens e mulheres que tem que pegar o transporte para ir trabalhar nas cidades vizinhas. A padaria na rua detrás já deve estar com movimento iniciado de pessoas a procura de pães quentes fresquinhos. E eu estou aqui. Na minha missão de relatar, de refletir sobre o estado de todas as coisas. Longe das propagandas que passam na televisão. Dos discursos inflados ou inúteis que enchem as ondas de rádio. Estou apenas eu e mais ninguém. Todos estão dormindo. Eu estou cuidando da minha sanidade. Porque apenas eu sei que isso me fará bem. Os outros não se importam. Querem apenas suas barrigas cheias e suas necessidades satisfeitas. É isso. O mundo é cruel. Todos os dias esbarramos na morte. O banal está aí ao seu lado e você teima em achar que você está longe dele.”

Ele parou. Ficou vendo gravador funcionar.

Fechou os olhos e respirou fundo. Apertou o botão que pararia a gravação.

“Bom. Muito bom.”

Disse, e saiu de perto da janela.


O homem levou o gravador até perto de sua boca e apertou o botão que iniciaria a gravação.

“Esse é o meu segundo e último relato. Não vou fazer mais relato nenhum. É perda de tempo. Tempo precioso que eu poderia estar bebendo ou fumando ou fazendo qualquer idiotice que me afastará desses pensamentos confusos.”

Hesitou por um momento.

Fechou os olhos e respirou fundo. Apertou o botão que pararia a gravação.

“Adeus.”

Jogou o gravador pela janela.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Quem é você?

Tum, tum, tum.

O Cowboy parou na frente da porta do bar. Um trabalhador malcheiroso da mina de carvão passou por ele. A portinhola ainda estava rangendo, para dentro e para fora. Ele entrou. Passou por uma mesa onde um grupo de idiotas jogava cartas. Estavam bebendo e fumando.  Em seus coldres pistolas impunham medo nos pouco preparados. O cowboy não era um desses.
              
Uma prostituta aproximou-se dele, enquanto sentava-se na banqueta de frente para o balcão.

“Olá, garanhão. Está com vontade de se divertir essa noite.”

Ele não respondeu. Talvez se a ignorasse ela o deixaria em paz. Ele só queria uma dose e uma boa noite de sono antes de sair daquela cidade medíocre.

“Uma garrafa da melhor bebida que tiver.”

“Tem certeza?”, perguntou indignado o barman. “São mais de...”

O cowboy tirou duas notas grandes e jogou em cima do balcão. O atendente foi logo pegando as notas antes que o forasteiro mudasse de ideia. Pegou um copo de vidro e colocou ao lado da garrafa.

A prostituta continuava a estudar o cowboy. Tinha um belo corpo e seria uma noite muito boa. Não era como aqueles velhos que ela costumava atender. Talvez até desse um desconto.

“E então, cowboy? Vamos lá pra cima pra ver...”

“Não enche!”

Ele pegou a garrafa e o copo e foi em direção à janela do lado oposto do estabelecimento. A moça não poderia perder a oportunidade. A porta rangeu novamente e um velho bonachão entrou. Ela passou a mão no pescoço do cowboy.

“Espera aí garotão!”

Ele virou-se e segurou a prostituta pela mão. Apertou com força.

“Eu já disse. Não enche.”

Ela deu uma risada quando ele a soltou. Continuou a andar. Ela tentou novamente. O cowboy deu-lhe um empurrão de leve. Ela não se machucou, mas foi o suficiente para que todos que estavam ali no bar levantassem. Alguns até colocaram a mão nas pistolas. Um dos que levantaram apontou o revolver para o forasteiro.

“Quem você pensa que é, hein? Quem é você pra vir aqui bater nas nossas mulheres? Essa aí é a minha preferida, se machucar ela...!”

O cowboy aproximou-se daquele que estava apontando a pistola para ele. Ele levantou o chapéu e estudou o homem. Cheirava a bebida barata.

“Quer saber quem eu sou? Hã? O que quer saber? O meu nome? O que eu faço pra pagar as contas? Pra quem eu trabalho? Se eu trabalho? Hã? Vamos, diga!”  

Ele aumentava o tom de voz a cada palavra.

Quando tirou o revolver do coldre o homem se assustou. A prostituta se encolheu de medo. O forasteiro apontou a arma para a parede. Havia algumas folhas gastas, com os dizeres Morto ou vivo pregadas na parede.

Ele deu um tiro na cabeça de um desenho parecido com ele. Todos se abaixaram. Ele colocou a pistola no coldre novamente e fixou o seu olhar no homem. Ele colocou o copo e o encheu com o líquido que acabara de comprar.

“Isso responde à sua pergunta?”

Ninguém ousou responder.

Ele estendeu o copo para a prostituta. Ela pegou com as duas mãos por medo de deixar cair por conta da tremedeira.

“Desculpe se fui um pouco rude. Situações assim me deixam um pouco nervoso.”

Ele ajeitou o chapéu novamente e saiu do bar bebendo direto da garrafa.


Na folha com o rosto dele estava o pistoleiro mais caro do Oeste.

Apenas O Cowboy.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um homem muito, muito feliz

Imagine um homem feliz.

Por favor, faça isso. Não deve ser muito difícil pensar em uma coisa assim. Já pensou? Se não conseguiu vou te ajudar, se já imaginou, seja paciente, não será um texto longo.

Esse cara tem a felicidade cravada em seu ser. Ele levanta todos os dias com um sorriso no rosto, para mais um delicioso dia que compartilhará com sua família. Tem ótima saúde e não tem motivos para reclamar de sua vida. Ganha muito bem, tem casa própria e carro do ano. Nunca passou por dificuldades. Nem na infância, nem na adolescência. Todos o amam. Ele até já apareceu na televisão em um desses programas de entrevistas.

Você deve estar invejando essa criatura mitológica. Ele é o máximo, não é!?!

Em uma das sessões de terapia ele disse tristemente para seu psicólogo: “Não sei... É que... Tudo está indo tão bem... Mas nada acontece de verdade...”

domingo, 30 de julho de 2017

Caderno verde e vermelho com coisas aleatórias

Ele tinha um caderno verde e vermelho com várias coisas aleatórias.

Uma lista com nove séries de televisão antigas. Lista de filmes, com cinco que queria ver e um que queria rever. O que queria rever era O Poderoso Chefão. Até hoje a sua longa duração não o deixou fazer isso.

Outra lista. Essa com nomes de escritores que alguém recomendou. Há 14 nomes na lista.

Um layout de uma capa minimalista.

Anotações sobre como pronunciar o ed no final de verbos no passado em inglês. Ainda hoje fica confuso com alguns.

Dois filmes que recomendaram, mas que nunca viu.

Uma lista de filmes que queria ver e viu.

Algumas de suas músicas brasileiras favoritas. Duas delas: Trem das Onze e No Olimpo.

Lista de projetos que eu fez ao longo dos anos. Alguns ainda na gaveta.

Um verso tirado de uma música que ele não se lembra mais de qual: Onde você vai acordar amanhã de manhã?

A palavra surreal escrita em letras de forma sublinhada duas vezes.

Mais um verso. Esse ele se lembra de qual música: You are my favorite what if.

Uma anotação/microconto/poema meio piegas:

A nossa casa pode ser nossa alienação.
Estou agora dentro de um ônibus voltando para ela e percebo que depois de vários dias confinado, é tão bom respirar ar de novo.
Conversar com as pessoas de verdade e não por mensagens de texto.
Mesmo com as falas entrecortadas, os silêncios embaraçosos; vale a pena o esforço.
Mas é tão fácil simplesmente ficar lá dentro, protegido.

Uma frase em francês: Je ne sais pas.

O título longo de um conto escrito em letras maiúsculas, cada palavra em uma linha.

Mais um título escrito assim.

Tem mais uns poemas, mais umas anotações, mais umas ideias, mas que não valem a pena serem colocadas aqui. Não que essas valham. Tinham seu valor quando as escreveu pela primeira vez, num certo caderno verde e vermelho.

sábado, 29 de julho de 2017

Uma noite de triunfo e descontrole

Um mosquito rondava sua cabeça. Ele ainda não percebera. Estava focado em sua missão de lavar toda aquela louça acumulada durante um dia inteiro cheio de cafezinhos e a lambança que fez ao cozinhar o molho do macarrão. Estava enxaguando os copos. O mosquito o rondava.

Não lembrava quando pegou tanta birra contra mosquitos, moscas, baratas... Na verdade todo tipo de inseto. Pensava seriamente em ir consultar um psicólogo. Ao ver qualquer um deles, uma terrível raiva tomava conta de si. Passava a não ver nada além do maldito voador. Geralmente voavam, e a tarefa de exterminá-los se tornava ainda mais árdua.

Terminara de enxaguar os copos. Uns oito. Passaria para a panela. A pior parte. Se pudesse, pagaria alguém apenas para lavar as panelas. Não precisaria fazer mais nada. Apenas entrar em sua casa, lavar as panelas e ir embora. O resto ele não se importava.

O mosquito continuava rondando sem ele perceber.

Colocou mais detergente na esponja já gasta e pegara a infeliz. Cerrou os olhos. Fez uma careta de nojo. Encarou-a por um momento como se ela fosse fazer o trabalho sozinha. Começou a esfregar. Começou por dentro, depois passou a esponja por fora. Por último o cabo. Enxaguou. Ainda estava engordurada. Cerrou os dentes. O mosquito ainda rondando. Ele sem perceber. Ainda mais agora que estava focado na terrível panela em suas mãos.

Colocou-a de lado e debruçou-se sobre a pia. Respirou fundo. Fechou os olhos. Sentiu algo em seu nariz. Bem sutil. Como as finas patas de um certo inseto. Rapidamente pegou a esponja. Bateu-a em seu rosto. Junte a raiva da panela com a do mosquito e você terá uma ineficiente máquina de matar.

Ele passou zumbindo por sua orelha, o que só o deixou ainda mais nervoso. Foi correndo até a dispensa. Pegou o inseticida e apertou a lata o mais forte que pode, andando de um lado para o outro da cozinha, da sala, mirando nas paredes e nos cantos onde o inseto poderia ter se escondido.

Cansou-se. Pôs as mãos sobre o joelho. Sentou-se no sofá. Respirava rápido por conta do esforço. O cheiro do veneno entrando em suas narinas, fazendo o espirrar. Mas tudo valeria à pena quando ele visse o bicho morto. Tirou o sabão de sua cara e deitou a cabeça no sofá. Descansou por alguns segundos.

Voltou sua atenção ao mosquito. Tentou ver onde estava. Não ouvia nenhum zumbido agora. Viu, bem ali, na parede atrás do sofá. Deu um tapa e matou o mosquito, que grudou na parede branca. Uma imensa alegria tomou conta de seu peito.

Começou a rir incontrolavelmente. O vizinho do apartamento ao lado gritou para que ele parasse com essas coisas de louco. Ele continuou, mais alto agora, só para provocar. Ficou sem fôlego, mas ainda com um sorriso de orelha a orelha.    

Até voltar para a panela na cozinha, que havia esquecido completamente. Pensou seriamente em passar a pedir marmitex da lanchonete ao lado.